23 Out. 2011 // 14 Out. 2012

caderno de viagens
JÚLIO RESENDE paris

Galeria do Acervo | Collection Gallery

“Tenho o Sena diante de mim. Do ponto onde me encontro, distingo com toda a nitidez um-todo urbano cuja estrutura me atrai. A Catedral assinala um eixo que se interrompe em dado momento, para se denunciar, em baixo, no negro de uma fachada. Tento captar a cor dominante desta atmosfera rarefeita.”

“Vejo pelos jornais a notícia da morte de Bonnard. Paris, nesta manhã de Sábado, está envolvida num cinza inabitual…”

“Um ângulo remata uma massa negra, confundindo vultos num emaranhado indefinível. Os postes elevam-se em jeito de circunstância, como tudo, aqui. Sobem expressões num "argot" próprio e sobem com elas, desejos de reatar hábitos que o recente conflito abalou.”
“No esquema do apontamento, tão rápido quanto possível, utilizo uma mina grossa e três sinais de cor, o bastante para fixar no Tempo, um tempo único para todo o sempre.”
“O lápis sobre a folha do bloco tenta captar esta massa negra que reflecte um esforço de sobrevivência humana.”

“Não sinto as mãos, não sinto os pés, mas o objectivo que me envolve supera a adversidade das condições.”

“Alguns dias se vêm sucedendo, pedalando quilómetros com paragens, sempre que algo nos desperta especial atenção. Atrás do selim, a verdade é que o volume de trabalhos vai dando razão e incentivo à pedalada…”

“O Expressionismo está-me nas entranhas e aqui, lhe dou rédea-livre. Silhuetas negras, que são gente, pronta a gesticular.”

“A postura em que me encontro, essa, é incómoda, como sempre… Mas o registo surge. Ao fechar o bloco dou-me conta que Goya, uma vez ainda, voltara ao meu pensamento…”

“Absorvido com estas cogitações saio, como habitualmente aos Sábados, e dirijo-me à estação do metro Montparnasse. O objectivo é "Port de Clignancourt", e aí, o Marché aux Puces. Talvez isso nada tenha a ver com a ocorrência do passamento, mas o estado de espírito sente que este cinza se torna, agora, a mais generosa das cores.”

“Bonnard compreendeu-o, para a eloquência das tonalidades, e fez orelhas moucas às críticas dirigidas ao seu aparente descuido pelo desenho. O próprio Picasso o afirma, com o seu habitual desdém.”

“Sinto-me gelado e fecho a pasta para dar alguns passos no emaranhado insólito de coisas que tiveram utilidade ou fizeram a delícia de pessoas perdidas na voragem do tempo.”

Júlio Resende
123456789101112131415161718192021222324252627282930...
1947 | Júlio Resende, Paris (Académie de la Grande Chaumière)
1947 | Júlio Resende, Paris (Académie de la Grande Chaumière)
facebook Lugar do Desenho