18 Set. 2010 // 17 Out. 2010

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Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

O encontro entre as obras de Diana Costa e de José Lourenço reside num assunto muito comum das sociedades contemporâneas, a saber: a urbanidade. Cada um dos artistas, num jeito muito próprio, representa a vivência urbana como premissa inicial no seu trabalho. Com concretizações finais muito diferentes, os dois artistas parecem discutir uma mesma ideia: as consequências da ausência de uma determinada acção ou acontecimento.
José Lourenço representa espaços vazios, corredores, acessos, escadas e plataformas de uma rede de metropolitano, onde a inexistência de indivíduos é evidente. De um modo frio e inóspito os desenhos e pinturas do artista apresentam uma cidade imaculada onde não se vislumbra a presença humana, nem o uso que estes transeuntes fazem dos espaços que consomem. Esta visão de fim da humanidade leva as ideias de decadência e despersonalização das cidades a um limite ainda mais aterrador. Veiculando que a ideia utópica de cidade, como excelência da vida contemporânea, só é possível, ou pelo menos ideal, despojada das pessoas que dela usufruem, o confronto com a ausência é, deste modo, algo incontornável.
Diana Costa apresenta uma nova série de trabalhos que se centram na representação de indivíduos isolados e recortados que flutuam nas paredes do espaço expositivo. Contudo, esta presença humana é retraída através das posições em desequilíbrio com que estas figuras são representadas. A suspensão das acções que ocorrem denota um bem-estar aparente. Parece que as personagens celebram a sua vida urbana num espaço idílico. A incerteza das suas acções revela a possibilidade do bem-estar nos lugares da sua vivência. Os espaços foram apagados como forma de exaltar as acções que nele decorrem. Assim, suspensa do seu espaço natural, entenda-se a cidade, a vida liberta-se promovendo o benefício individual.
A definição de cidade poderá ser entendida como uma numerosa aglomeração de população, com acesso a determinados serviços económicos, sociais, comerciais, industriais e culturais. Mais, a urbe corresponde a um modelo organizado e programado da vida comunitária idealizada para o bem-estar da comunidade que nela vive. Em oposição ao rural, a cidade foi conotada como um espaço de influências negativas, onde o crime e a vida decadente têm um campo fértil para se desenvolver. Historicamente, segundo o Livro do Génesis do Antigo Testamento, a primeira cidade terá sido fundada pelo primeiro homicida. Após matar o seu irmão Abel, Caim, condenado a ser errante e vagabundo, fixa-se numa região isolada do Éden iniciando a sua descendência e cria uma comunidade urbana. Segundo esta versão religiosa, a cidade revela a despersonalização do indivíduo conotando-o com a decadência e o mal, como se vem a confirmar posteriormente com a destruição da cidade de Sodoma. Assim, as grandes concentrações de pessoas tendem a aumentar, talvez exponencialmente, o gosto e o desejo da natureza humana pelo ser-sombrio e ser-decadente nutrindo, deste modo, uma forma inexpressiva de edificar os lugares da sua vivência e sobrevivência.
Por um lado, a ausência de figuras humanas nas obras de José Lourenço que despovoam o espaço urbano demonstra a inabilidade e, até, a inutilidade da espécie humana em coabitar com o espaço que idealmente para si construiu. E, pelo contrário, nas obras de Diana Costa a ausência do espaço que envolve as figuras mostra a harmonia existente entre ambos. Esta dupla constatação acentua a perversidade dos desencontros urbanos onde, de forma egoísta ou altruísta, cada qual usa e abusa desenfreadamente de um mesmo espaço na esperança de este se tornar num local de encontro entre todos.

Hugo Dinis, Agosto 2010
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Diana Costa: Vista da exposição
Diana Costa: Vista da exposição
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