22 Jan. 2010 // 19 Fev. 2010

Desenho Português no Egipto

Colectiva

Palácio Amir Taz - Cairo

Armando Alves
Francisco Laranjo
Júlio Resende
Manuel Casal Aguiar
Marta Resende
Victor Costa
Zulmiro de Carvalho

O Lugar do Desenho tem o privilégio de, em parceria com o Instituto Camões, poder apresentar no Cairo e no Palácio Amir Taz, uma significativa exposição do desenho português, através de artistas que em distintas ocasiões se têm circunstancialmente reunido com o propósito de neste sentido, reflectir sobre o desenho como disciplina na sua estratégia criativa e também, sobre a identidade portuguesa.
Assim, se o denominador comum destes interpretes terá sido a sua formação na Escola de Belas Artes do Porto em espaços cronológicos distintos, nem por isso, a persuasiva insistência na determinação de olhar o mundo e sobre ele construir discursos inquietantes que as suas trajectórias artísticas denunciam puderam deixar de articular um corpo sólido do que se espera venha a ser valorizado como uma excelente oportunidade para comunicar e dialogar com o público a que se dirigem.
A autenticidade de cada presença e os seus propósitos eloquentemente se afirmam.

O Lugar do Desenho


A Embaixada de Portugal tem a honra de acolher e apoiar, com o Instituto Camões, a exposição Desenho Português no Egipto e agradece à Fundação Júlio Resende bem como ao grupo de artistas que a representam nesta iniciativa de divulgação da arte portuguesa e de intercâmbio com artistas egípcios.

Embaixada de Portugal no Cairo


É uma tarefa arrojada apresentar pela primeira vez, no Cairo, sete artistas portugueses de gerações diferentes, com percursos longos e distintos entre si, através de um número limitado de trabalhos que se pretendem representativos daquele que é o modo de intervenção de cada um. Tomar a parte pelo todo não só é arriscado como imprevidente. Por isso, estas palavras de introdução visam, na medida do possível e na escassez que também as caracteriza, compensar tal limitação.

Não é raro, nestas exposições, procurar um nexo entre os artistas e/ou as obras que as constituem. No que a estes artistas respeita, o nexo não é um, são vários: nasceram no Porto ou aí se radicaram; encontraram-se na mesma Escola de Belas Artes (do Porto), entre relações de professor e aluno e depois como colegas, o que os levou a partilhar referências, influências, interesses e afeições; partiram desta cidade em viagens comuns de estudo e de trabalho; foram parte das mudanças do mundo artístico e, por vezes, integraram as mesmas exposições colectivas; contribuíram para a criação do Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende que estuda, expõe e difunde um espólio de desenhos de Júlio Resende e aborda o desenho, mais como expressão do que como disciplina, em registos amplos e plurais; e, neste âmbito, têm realizado inúmeras iniciativas que, não apenas divulgam e homenageiam o trajecto artístico de Júlio Resende como promovem a obra de múltiplos colaboradores do Lugar do Desenho e de artistas portugueses, particularmente fora de Portugal. Uma boa parte destas actividades ocorreu no mundo de cultura lusófona e funcionou como espaço de encontro para estes artistas, mas, principalmente, como espaço de encontro com artistas e criadores de outras latitudes, espaço de entendimento entre povos, oportunidade para aprofundar o conhecimento de outras culturas, propagando um sentido da arte radicado numa visão humanista. Estes são, pois, alguns dos laços que unem os artistas agora apresentados.

Mas este nexo já não se pressente tão facilmente no programa artístico da exposição, nem era esse o seu objectivo, uma vez que os trabalhos mostrados correspondem à visão particular que cada artista desenvolveu no quadro de preocupações específicas e de pesquisas próprias. As palavras seguintes não chegam para revelar o que cada artista propõe em termos de intervenção artística, mas poderão, eventualmente, abrir algumas vias de aproximação ao seu trabalho.

Júlio Resende, uma das figuras maiores da arte portuguesa do século XX, nascido em 1917 e formado nos anos 40, autor de uma vastíssima obra que atravessou várias décadas e arrastou consigo influências e sinais de correntes artísticas sucessivas, gosta de se situar no interior de uma sensibilidade expressionista atenta aos lugares e às gentes, aos seus movimentos, aos seus afazeres e às suas ilusões. Quando se apresenta como expressionista fá-lo num compromisso de autenticidade e na convicção de que projecta sobre a sua obra essa atenção ao Homem.

Armando Alves (1935) vem desenvolvendo, desde os finais dos anos 50, uma carreira multifacetada de pintor, criador de objectos e designer gráfico, tendo renovado e consolidado esta área de forma pioneira, na qual muitos quiseram ver a matriz do rigor que a sua produção pictórica e o seu desenho apresentam. Não obstante, a sua pintura evoluiu para sinais de grande expressividade e riqueza matérica que as visões transfiguradas da paisagem revelam.

Zulmiro de Carvalho, nascido em 1940, escultor, autor de numerosos projectos de arte pública instalados em Portugal e fora das suas fronteiras, tem no desenho uma prática paralela à da escultura que revela alguns dos seus valores mais sólidos e a instauração de um vocabulário elementar e sóbrio, mas dotado de uma subtileza que lhe permite introduzir temas e ideias e ultrapassar o que poderia ver-se como mero formalismo.

Casal Aguiar (1941), detentor de um percurso muito discreto, marcado por viagens e registos de viagens, consolidou, a partir de finais dos anos 70, uma figuração que poderia inscrever-se no chamado regresso à figuração que se assinala na arte ocidental a partir de então. Trata-se de uma figuração de recorte simplificado e assumidamente essencial que deriva tanto do registo do real como da memória que dele se guarda.

Victor Costa (1944) é autor de uma vasta obra pictórica onde os sinais de sensibilidade atmosférica se articulam à forte presença plástica e estrutural. Retira os seus pretextos de aspectos da realidade que lhe permitem explorar precisamente essa plasticidade, sejam arquitecturas, elementos da natureza ou artefactos do mundo industrial, como aconteceu em projectos recentes.

Marta Resende (1946) residindo desde 1978 em Stuttgart, Alemanha e no Porto, Portugal, tem explorado o desenho, a pintura e, mais recentemente, a fotografia digital em registos sensíveis e delicados que procuram uma substância imponderável, quase imaterial, de grande densidade poética.

Francisco Laranjo (1955), o último dos artistas apresentados, é professor na Faculdade de Belas Artes do Porto. O seu desenho e a sua pintura oscilam entre o uso enfático da cor e a presença do negro, presente em numerosos projectos, por vezes articulada à utilização de folha de ouro. A sua obra é de teor abstracto, resolvida no quadro de uma liberdade gestual associada a um grande sentido lírico.

Do ponto de vista estético, parece haver em todos estes artistas uma capacidade notável de partir daquilo que é essencial para chegar a algo mais profundo, de aliar o elementar ao monumental. Se é certo que esta exposição apenas esboça, sem retratar, cada um destes artistas, não é menos certo que ela permite um olhar sobre a arte portuguesa, na diversidade das propostas apresentadas que, mais uma vez, o Lugar do Desenho acompanha e promove.

Laura Castro
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Armando Alves | S/ título | 2009 | Desenho | Lápis de carvão | 50,0 x 70,0 cm
Armando Alves | S/ título | 2009 | Desenho | Lápis de carvão | 50,0 x 70,0 cm
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