23 Out. 2005 // 16 Abr. 2006

"Um rio que se deixa morrer entre nós"

Júlio Resende

Galeria do Acervo | Collection Gallery

Longe de pretender especular sobre assunto de tão obscura reflexão como o destino das coisas que vivem, o certo é que o título encontrado para reunir as obras da presente mostra se prestou a que me levasse a intuir sobre a possível analogia do carácter de um rio e o homem. "Um rio que se deixa morrer entre nós" merece todos os riscos.
Um rio sem história será apenas um curso de água no traçado hidrográfico da crusta terrestre.
Talvez como poucos, o rio Douro experimentou na adversidade geológica as feições que dele fizeram cenário de memórias épicas, mas igualmente outras mais apaziguadoras tal qual um requisito daquilo que é vital. No traçado em socalcos temerosos desnivelamentos o homem fez dessa rocha o ventre gerador do milagre para o sustento e para a avassaladora obra de arte. Ao findar tão aturada trajectória o Douro espelha as margens de uma beleza arrebatadora que nos leva a sentir um acorde final de uma sinfonia de Mahler.

Resende

Um sentimento de envolvência domina as capacidades de absorção fazendo de nós a parte de um todo.

O rio, como um corpo, reage aos confrontos físicos de um espaço vital. À contemplação do observador médio isto nada terá de relevante.

A pintura não é uma diversão. Resulta do intento de responder a uma espécie de provocação de um fenómeno. Resposta por conta e risco do pintor, reconhecendo de antemão que essa resposta não o satisfará inteiramente.
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1990 | Rio Douro | 23,5x21,5 | Óleo s/ papel
1990 | Rio Douro | 23,5x21,5 | Óleo s/ papel
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