16 Abr. 2005 // 16 Out. 2005

Uma Casa em Korntal

Júlio Resende

Galeria do Acervo | Collection Gallery

Circunstâncias familiares motivaram frequentes estadias em Korntal, a poucos quilómetros de Estugarda, local da residência de minha filha Marta e do Daniel, único neto. Korntal é uma palavra derivada, de duas outras, que significam "Vale de Trigo", e explicita topograficamente, a natureza do local. Aliás, de Estugarda a Korntal, podemos imaginar a continuidade da floresta, envolvendo o Palácio Solitude, sem qualquer constrangimento. Floresta, de que a Alemanha se orgulha, mantendo-a com natural disciplina por todos aceite e defendida. Korntal é, pois, uma pequena zona urbana que, quase se dissimula na paisagem, dado as construções não passarem de residências envoltas em cuidados jardins, tratados pelos proprietários, com visível orgulho, aos fins de semana. A pequena urbe obedece a regras de compostura social de uma classe ligada à montagem de automóvel.
Mas Korntal é marcada socialmente por outra circunstância: uma "seita" de ideologia moral e religiosa "pietista" teve ali o seu centro, de há muitos anos a esta parte, reflectindo-se ainda hoje no comportamento colectivo dos residentes.
Numa das minhas estadas, ao percorrer as ruas impecáveis de asseio, deixei cair um cachecol inadvertidamente.
No dia seguinte, dando falta do agasalho, ao retomar o mesmo trajecto, dou com essa peça cuidadosamente colocada e dobrada no murete do jardim. Isto, é Korntal.
Aí se situa a residência da Marta e onde Daniel cresceu. São naturais as minhas recordações junto do neto a quem ensinei a pronunciar as primeiras palavras em português, e quando mais crescido, me acompanhava à floresta, fazendo as suas pequenas aguarelas.
Por norma, os jardins privados não dispõem de muros a impedir a vista de quem passa, e os proprietários requintam a sua jardinagem. Se, com o passar do tempo, a Marta se integrou nesse meio social, o seu jardim não é exactamente como os demais.
Talvez uma questão tão subtil impossível de explicar.
O meu temperamento expressionista, como se "apaziguou" no cenário desta sua casa, aceitando um "intimismo" pouco habitual. A atmosfera de um-todo de imagens e sons, não apenas de uma captação directa, mas de todo um clima de periferia, mostrou-se propício ao registo destes apontamentos.

Resende
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