3 Mai. 2003 // 31 Jul. 2003

Viagem - Ilha de Moçambique

Armando Alves, Francisco Laranjo, Júlio Resende, Manuel Casal Aguiar, Marta Resende, Victor Costa e Zulmiro de Carvalho

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

0.
"Mas estas comunicações de África chegam-me de uma forma estranha, irreal, assemelhando-se mais a sombras, ou miragens, do que a notícias de uma realidade."
Karen Blixen

"Je suis seul, assis en face de l’immense grise de la mer murmurante...je suis seul seul comme je l’ai toujours été partout, comme je le serai toujours à travers le grand Univers charmeur et décevant»
Isabelle Eberhardt

Eu nunca tive uma quinta (fazenda) em África.
Eu nunca estive em África, nem no Quénia, nem em Moçambique, nem em qualquer outro país – apenas lá estive nas leituras e nas imagens dos outros que me fazem sentir (shame, shame, shame...) algum ciúme, alguma inveja saudável (espero)!
Não tenho uma África Minha! Mas em África, afinal, os Europeus só estão de passagem, numa terra que não é a “deles”. Apenas (será assim indicativo de tão pouco?) é a “deles” nas suas memórias [1], nas suas vidas, nas suas imagens, enfim, em tudo aquilo que pensámos ser somente nosso (dentro do próprio) – como aliás tudo o mais na vida? Reaproprio-me, por minha vez, aqui, das frases, das ideias expressas por Karen Blixen [2], pela Baronesa. Lembram-se de Meryl Streep e de Robert Redford no filme de Sydney Pollack?
Estive também na África, no deserto, na Algéria, pelos caminhos traçados de Isabelle Eberhardt [3] ou a bordo dos camelos numa travessia de Théodore Monod...entre outras viagens. Mas isso fui eu e não interessa, agora, essa África: é muito a Norte.
Quando se parte em viagem, pode existir, desde logo, um destino. Há quem parte em viagem sem ponto de chegada pre-estabelecido. A ida dos seis pintores e um escultor, em direcção à Ilha de Moçambique, é ou melhor foi um ponto de chegada, para ser, algum tempo após, um ponto de partida. Dizem que partir em viagem para atravessar e fazer “seus” sítios desconhecidos é fazer um caminho substancialmente dentro de si. Sair para além é um pretexto para viajar dentro. Dizem. Sai-se de si e chega-se a si, em termos externos e visíveis e, durante todo o tempo que a viagem dura, esteve-se consigo, sem se fugir a si.
A Ilha de Moçambique, que partilhámos, começou nas nossas vidas com Luís de Camões, normalmente por obrigação lusíada. Depois, é questão topológica, geográfica e/ou mediática. Por exemplo: vai-se tendo consciência dela nas fotografias da National Geographic, nos mapas, nas imagens da Internet ou da TV Cabo. Quando surge alguém que fala sobre as suas viagens na primeira pessoa (do singular/plural...) é um privilégio duplo: foi um privilégio para quem lá esteve; é um privilégio para quem ouve e vê essa estadia, pelos testemunhos directos.

1.
“O desenho da Ilha?
O de ontem, mais amplo, certamente. O de hoje submete-se à conquista do mar e estabelece momentaneamente um solo onde o homem se acotovela num entendimento solidário.” [4]

Nesta exposição confrontamo-nos com sete testemunhos pessoais, concertados pelo conceito de uma viagem em conjunto. Da convivência com África, pessoas e paisagens, objectos e mitos, entre as conversas de sete artistas (penso eu), geraram-se imagens, externas e visíveis, da Ilha de Moçambique. (...)

Fátima Lambert in catálogo da exposição

[1] "Memory of both senses of the world: as a catalyst for remembering of his own life and as an artificial structure for ordering historical past." Paul Auster, The invention of solitude, London, Faber & Faber, 1982, p.117.
[2] Veja-se Karen Blixen, África Minha, Lisboa, Ed. Europa-América, 1987 (1937): "Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo." (p.7)
[3] Vejam-se Isabelle Eberhardt, Lettres et Journaliers, Paris, Actes du Sud, 1987 (1923) e Théodore Monod, Méharées, Paris, Actes du Sud, 1989 (1937)
[4] Júlio Resende, "A ilha dos meninos com olhos cor da esperança", Boletim Lugar do Desenho, nº5, ano 3 2000, p.11
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