23 Nov. 2002 // 10 Jan. 2003

"Em Suspensão"

Andrew Bick e Patrick M. Fitzgerald

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

"Nunca desprezes as pequenas coisas da vida."
Samuel Beckett Desenho Primeiro, uma citação extensa: “Porque será o desenho tão difícil no Ocidente? Por causa da ideia que domina tantas mentes platónicas e, também, pela noção cristã de um Verbo que produziu o Universo: o que prova que, nos dois casos, a realidade se identifica com a linguagem. As nossas civilizações do sol do fim da tarde nascem desta reclusão da mente nas palavras, o que permite que a mente percorra a história impensadamente, sem o apoio de um corrimão, correndo o risco de desastre. O pintor chinês, por outro lado, era desenhador a cem por cento... no Ocidente, o desenho é, notoriamente, tão raro, tão invulgar como a poesia. Neste caso, falar do desenho seria o mais simples, uma vez que é sempre no acto de desenhar que o pensamento do artista se revela. Aqui refiro-me ao “desenho”, e não ao “esboço”, aos diagramas ou planos, porque é o desenho em e por si, ao contrário do primeiro, mero acto preparatório para a feitura da arte, é mesmo aí, que a mente do artista se revela sempre. O desenho é directo, o desenho é simples, e o desenho – no seu sentido mais amplo – significa pensamento, como cantar no duche ou como a caligrafia de Joseph Beuys, soa e parece bem. É pensar através do movimento dos braços e dos pulsos e, tal como quando somos crianças, torna-se o seu próprio fim.

Coibição A interrelação entre o trabalho de Andrew Bick e o de Patrick M. Fitzgerald é mais do que os anos passados juntos durante a sua formação na Chelsea School of Art e os seus muitos anos de amizade; embora a sua maturidade artística tivesse lugar em Inglaterra, as raízes da sua arte encontra-se na abstracção europeia (Leger, Malevich, de Keyser) com o olhar voltado para a América (Newman, Ryman, Tuttle). Não obstante estas influências, a Inglaterra tem constituído uma base estável para o desenvolvimento de ambos – ou seja, através de uma clara resistência à corrente figurativa e narrativa que enforma o fulcro da arte inglesa. Primeiro, ambos constroiem a sua obra numa linguagem modernista europeia: começam com a grelha - símbolo e estrutura modernistas básicos - que suspendem, corrompem, degradam e, por fim, questionam. É basicamente uma matriz sobre a qual se constrói; o pensamento aqui ocorre através do acto progressivo de agregação e escavação: em Bick através de camadas de sacos de glassina, sobre os quais se acrescentam marcas, diagramas, grelhas e rabiscos com marcadores e com grafite; Fitzgerald, por sua vez, utiliza lápis de cor, grafite e rasuras para criar formas amplas e manchas de marcas incidentais e linhas fluidas. Em Bick, a estrutura formal é física, pelo uso de camadas de cortes e sacos de glassina, enquanto que Fitzgerald produz o seu efeito pela sua qualidade de desenhador, construindo uma série de formas/marcas em relação ao suporte. A precisão, no caso de ambos, reside na investigação, no desenho e no re-desenho, antes de se chegar a uma determinada posição. No fim, ambos produzem autênticos desenhos de baixa fidelidade.

Sherman Sam, Londres, Novembro de 2002
Tradução de Vera Rocha e David Alan
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