10 Mar. 2001 // 3 Abr. 2001

"Michael Wingo"

Michael Wingo

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

Tenho acompanhado o trabalho de Michael Wingo desde o seu início, o que em termos práticos significa desde pouco depois da sua formatura em Artes no Otis Institute de Los Angeles, na Califórnia, em 1987. Ainda durante a sua permanência no Instituto, o artista estudou com Lorser Feitelson, um lendário abstraccionista puro, bem fundamentado na História da Arte. Feitelson despertou o interesse de Wingo para as relações espaciais cujas bases se encontravam na abstracção geométrica, mas o estudante foi mais longe do que o mestre torcendo e entrelaçando formas e espaço de uma maneira que viria a tornar-se a sua assinatura. Formas e espaço circundante incomodam o olhar e os outros sentidos através de uma série de desequilíbrios equilibrados, ou como o próprio Wingo diz: "Estou interessado numa dicotomia visual". Estas ideias impulsionaram o trabalho de Wingo desde esse momento até hoje; hábeis mas significativas variações no enquadramento conceptual têm vindo a alimentar o seu trabalho, mantendo-o ocupado de forma mais do que diligente há mais de três décadas. Em 1984 o crítico de arte Mark Van Proyen, de S. Francisco, escreveu que as obras de Michael Wingo "impõem uma investigação das suas sequências, paradoxos e dicotomias [que] criam um mundo de fenómenos sensitivos muito diversos operando de forma concertada." E prosseguia, equacionando as pinturas desse período e composições musicais, fazendo referência a Vassily Kandinsky. Nessa época isto pareceu uma avaliação perspicaz, mas desde então e com início em 1985 também o ponto de partida para esta exposição a pintura de Wingo sofreu uma série de mudanças que a afastaram do abstraccionismo puro em direcção a uma gama de formas que sugerem organismos e objectos reais no espaço e que apenas podem ser descritas como sobrenaturais. Nos trabalhos mais antigos desta exposição, por exemplo, Wingo retoma o desenho, para o qual tem uma capacidade academicamente treinada. Estes trabalhos, modulados com grande beleza, com a sua enorme escala de valores realçada pela mais subtil alusão de cor, pareceram libertá-lo e transportá-lo para um outro nível. Foi nestas obras que emergiu um novo formato que permanece produtivo até hoje, tanto nos pequenos como nos grandes trabalhos, e que poderá ser descrito como cinemático. Em vez do rectângulo artístico tradicional, ele alongou a forma ou comprimiu a vertical de maneira a negar a relação tradicional solo/céu; o espaço da imagem tornou-se uma espécie de manifestação cósmica. Perante os trabalhos maiores, alguns chegando a medir dois por doze pés [aproximadamente 61 x 366 cm (n.t.)], pensamos imediatamente em visão cinemascópica, onde as formas dentro do espaço são comprimidas pela visão periférica. Recordamos o "2001" de Stanley Kubrick, os seus estranhos asteróides mitológicos movendo-se à velocidade da luz. No início dos anos 90 estas formas ou referências subjectivas afastam-se da geometria em direcção a formas arquetípicas junguianas, por vezes relacionadas com mitos, outras com sonhos: por exemplo, Wingo considera a silhueta de cunha retorcida que aparece nestes trabalhos o lendário "martelo de Thor". A esta forma angular em breve se vai juntar a imagem mais suave e orgânica de um casulo que joga em contraste com a muscularidade do "martelo". Novas técnicas também começam a realçar a superfície dos seus trabalhos sobre papel. Uma combinação de óleo e resina sobre papel preparado com gesso confere a estas pequenas pinturas uma superfície e uma textura vívidas e translúcidas, requerendo uma inspecção mais atenta. Por volta de 1994 outras novas formas foram introduzidas no seu campo espacial. Aquilo que parece um haltere animado torna-se instrumento do interesse contínuo do artista por equilíbrio e desequilíbrio. Mais tarde uma forma curva como a espiral de um fio de telefone domina as pequenas pinturas. Segue-se-lhe, por sua vez, aquilo que Wingo descreve como uma "perna e uma roda". É para mim interessante que estas formas míticas pareçam ter grande importância para Wingo, quer surjam de empréstimo de mitos, ou dos apontamentos e do sonhar acordado da vida quotidiana. É verdade que as imagens são unicamente suas, mas é duvidoso que aqueles que as vêem as interpretem como ele o faz. Tudo isto lhes acrescenta um certo ângulo surrealista quando se abrem à livre associação. De 1995 a 1997, enquanto trabalhava numa série de pinturas monumentais, o artista produziu aquilo que ele próprio chama "o Wingo portátil". Ou seja, uma série de minúsculas pinturas sobre papel, medindo cada uma cerca de 3/4 de polegada por 3 polegadas [aproximadamente 1,9 x 7,6 cm (n.t.)], cada uma delas de feitura imaculada. O objectivo era mostrar aos marchands interessados no seu trabalho algo mais empolgante do que uma simples transparência. Algumas delas fazem parte desta exposição que é completada pela série "Hard Black", onde toda a ênfase recai não sobre a cor, mas sim sobre os valores tonais e a riqueza da superfície. Por fim há três novos desenhos de 2001, ainda sem título. Michael Wingo continua a crescer e a expandir a sua visão e o autor espera que esta semi-retrospectiva de trabalhos sobre papel de pequeno formato possa abrir o apetite para o que ainda virá. Henry T. Hopkins
(Professor de Arte na UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles) tradução de Cláudia Gonçalves

Perfil do Artista: Formação académica: Bacharel e Mestre de Artes pelo Otis Art Institute de Los Angeles; Bacharel de Artes pelo Claremont McKenna College, de Claremont, Califórnia; Art Center College of Design, Los Angeles Exposições individuais: Newport Harbor Art Museum, Califórnia; Lugar do Desenho, Porto, Portugal; Santa Barbara Art Museum, Califórnia. Colecções permanentes: Santa Barbara Art Museum; Oakland Museum, Califórnia; Security Pacific National Bank; IBM Corporation. Incluído nas seguintes publicações: International Dictionary of Biography; Who1s Who in American Art; California Painters: New Work (Henry Hopkins) Prémios: National Endowment for the Arts (NEA), Pintura 1989; Bolsa para pintura da Adolph and Esther Gottlieb Foundation, 1992.

Depoimento do Artista: Estou interessado na dicotomia visual: a justaposição de uma forma intuída num espaço adverso. Quero unir a forma flutuante como uma presença isolada primordial à dinâmica do espaço que a circunda. O formato horizontal define um cercado humano mas também o espaço da paisagem. Formas que anteriormente se encontravam agrupadas evoluíram para a forma isolada no espaço, mostrando a figura biomórfica transformar-se na arquitectura interior do espaço. O que, por seu turno, evoluiu para o martelo e o fulcro dentro do espaço horizontal. Uma pintura atmosférica e densa, o uso específico da cor e o uso do preto como cor intensificam a sensação de compressão da forma truncada no espaço. A forma flutuante é ao mesmo tempo contorcida e ancorada no local, aumentando a ambiguidade. Há uma espécie de espírito sarcástico na sua disposição e existe ironia na densidade e na margem da(s) forma(s). À medida que a forma biomórfica evoluía, descobri referências a formas naturais, como as que se encontram na figura humana ou em formas animais. É a percepção cinemática de um nariz, um membro como silhueta a separação visualmente descorporalizada de uma forma humana como princípio errado. Há uma referência ao papel do silêncio incómodo que se segue a uma queda e um reconhecimento da condição humana através da descoberta do espaço adverso. Há uma percepção do momento teatral e a recordação da forma atávica o empurrão suspenso, o testemunho mudo da forma,vulnerável no seu espaço.
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