17 Jun. 2000 // 31 Jul. 2000

"Desenhos de Sherman Sam"

Sherman Sam

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

Claro que o Frank expressava isso melhor. "Agradável e fácil é melhor... (marcação de compasso) ...sempre." Agradável mais fácil - a fórmula que conduz ao credo da Boa Vida.
Mas, no entanto, Frank Sinatra não era pintor. Os pintores têm problemas, problemas com a pintura, problemas que uma marguerita gelada não pode curar. E se não tiverem, então em breve já não serão pintores.
"Esta grande sinfonia de hoje que é a eternamente renovada variante da sinfonia de ontem... este hino complexo chama-se cor," disse também o Frank; ou talvez o tivesse dito Charles Baudelaire. Sherman Sam recusa a aceitar o agradável e fácil - as suas pinturas estão excessivamente repletas de formas complexas, que chocam entre si, com ritmos cruzados improváveis para sugerir facilidade - mas ele, pelo menos, solucionou a questão da cor. Cor-de-rosa de um bloco de notas, cor-de-rosa de um daquiri de morango, cor-de-rosa de um melão adocicado. O cor-de-rosa ao ser a resposta a um problema /que esquema de cor?
Como se a pintura fosse um apartamento tornou-se contudo, um problema bicudo em si próprio.
Ninguém pinta em cor-de-rosa - ou se o fizerem, pintam gatinhos. (Willem de Kooning pintou "Anjos cor-de-rosa", mas essa quadro era principalmente amarelo. O cor-de-rosa nas pinturas de Sam é como uma armadilha em arame feita de fita esticada ao longo de uma entrada para um mundo infernal.
Mesmo assim é uma cor doce, madura nas suas propriedades transformadoras e ricas modulações. Fica bem com preto /perguntem ao Elvis Presley ou à Lady Penelope dos Thunderbirds). Fica bem com o creme, com os ocres. Fica bem quando se suja; canta e salta; a sua mudez faz-nos sorrir. E é de facto um contrapeso necessário ao que está a acontecer nas outras partes destas complexas pinturas. (como são os vários exemplos reunidos aqui, da pintura do Sam em tons de creme, outra cor difícil por ser uma cor excessivamente referencial).
Um contrapeso necessário, de outra forma haveria problemas. O Sam usa formas que não se enquadram bem na tela e que não gostam necessariamente umas das outras, mas que se têm de entender porque isso faz precisamente parte do jogo. Os quadros abstractos do Sam são como termos análogos de festas cocktail movimentadas e alegres, onde as pessoas são apresentadas umas às outras, se observam mutuamente (a base da etiqueta social), se separam em desespero e, cinco minutos mais tarde se reencontram de novo perto da taça de ponche.
Reflexões e rimas ocorrem ao longo destas abstracções; uma gradual forma geométrica que aparece aqui e ali. Uma forma parecida com nós de madeira, no formato retorcido de biscoito em forma de nós, parece estar sempre a derrubar a porta e a assumir uma posição central no palco, determinada em dominar. Em segundo plano, pelotões de flores coloridas de parede criam formações bonitas nas margens, paisagem recortada de um cartão, contra a qual o principal acontecimento será realçado. E essas formas primárias também não se estão a entender muito bem. Esfregam-se umas nas outras - o espaço parece ter sido desenhado precisamente para as acomodar mas para não deixar nem um centímetro de espaço livre.
Dominam os maus humores. Por vezes há uma explosão de harmonia - no entanto, geralmente, a cena borbulha como uma panela de pressão.
Vamos deixar essa metáfora a ferver lentamente. Outra contenda nas pinturas de Sam ocorre nas características divergentes das formas principais, que estando regularmente separadas entre as geométricas e as curvas, sugerem uma oposição consertada de organicismo e arquitectura (embora à luz da arquitectura contemporânea (Gehri Hadid) essa oposição não seja tão notoriamente aguda como costumava ser). Há muita mutação intersticial também - as formas organicistas brotam de repente de uma infra-estrutura plana, revelada através de todos os tipos de penumbra e pintura inferior visível; a geometria curva-se e muda para acomodar as necessidades da moldura da pintura e a profundidade espacial da pintura será imprevisível. O desenho interno da pintura prova ter uma elasticidade e um manuseio especial, um aspecto naturalmente sociável. A moldura da pintura é pois a hierarquia primordial aqui; todos têm de ser obrigados a caber dentro e esquecem-se das consequências. Se isso significar um ligeiro ferimento, um pouco de esmagamento dos cantos, familiaridade forçada, tudo bem.
De facto tudo de adequa com Sam que gosta de formas desconfortáveis e que reverteu a receita padrão da pintura, que consiste no facto da moldura dever ser feita para se adequar à imagem. Ele apercebe-se de que não vale a pena fazer quadros que agradem aos olhos, quando quase todas as avenidas do prazer visual directo já foram exploradas. Estamos na altura de ver o prazer que um pouco de dor propositada pode engendrar. Pois os quadros de Sam tem uma lógica própria intrínseca - eles abraçam, eles harmonizam - mas fazem-no lentamente, e duma forma que poucos outros quadros conseguem fazer; até certo ponto, eles querem aborrecer o espectador e obrigalo/a a recalibrar quaisquer pre-concepções sobre a pintura contemporânea. Muitas pinturas abstractas aspiram à condição de papel de parede; as do Sam aspiram a ser decoração difícil, como uma melodia ondulante de Chet Baker misturada com a música pós melódica Skronk de Albert Ayler ou como um cavalo Troiano a comandar o exército secreto do lado de fora. Leva tempo a ler estas formas, a analisar o seu propósito elíptico, mas vale a pena; estas são pinturas inteligentes, coleccionadas, e não se parecem com nada à sua volta.
"Eu fi-lo à minha maneira," diz Sherman Sam

Londres 2000
Martin Herbert
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