23 Abr. 1999 // 15 Out. 1999

"O Desenho no Muro"

Júlio Resende

Galeria do Acervo | Collection Gallery

A inserção do artista plástico na sociedade é por demais entendível e a razão que baste para o ser. Num espaço urbano é sublinhamento, e não, intervenção. Algo que se sente mais do que vê. Um sentir suficientemente abrangente no espaço global e que se mantém latente no tempo. Assim, parece dever reclamar-se do artista aquela espécie de humildade para reconhecer o momento justo de participar no ambiente exterior ao seu atelier, esse sim, o espaço da experimentação. O pintor se é efectivamente aquele que opera pela via plástica (...) requer um suporte físico, dependendo a sua natureza e robustez consoante as características do local. O muro sempre constituiu para mim, uma espécie de obsessão, sobretudo a partir dos anos 47 quando pela primeira vez deambulei pela Itália. Então, de regresso a Paris, Duco de La Haix instruíra-me quanto às capacidades do "mortier" dando-me "alta" para eu próprio levantar um muro para a pintura afresco. Tudo tem uma história e a minha vem de longe marcada com um envolvimento mural. Nem sempre linear, é certo, eu o reconheço. O longo período de 50 anos que dista do primeiro ao último mural, o mundo sentiu o solo abalado, os ventos sopraram forte e os homens aviltaram-se vezes sem conta. Os sinais da arte não lhe foram indiferentes. Como entender a linearidade neste sentido que se diz, evolutivo? Todavia, a decoração de um mural é sempre uma referência consequente de um tempo, como o de Berlim ou de uma fé, como o das Lamentações. Um muro, só por si, tem sempre um significado, que físico que psicológico. O primeiro, subsiste como realidade, o segundo, submete-se, não por subalternização uma vez que participa numa unidade que resulta das duas realidades. São inúmeros os questionamentos que se colocam ao muralista, os técnicos, estéticos, funcionais, e outros. Responder-lhes foi o meu propósito neste decurso do tempo, propósito esse de serviço à sociedade tão escravizada pelos ponteiros do relógio, pelos engarrafamentos de trânsito e pela angústia de Ter perdido o significado da vida. No meu entendimento a arte no muro em vez de enfatizar o "statu quo" em que a sociedade está entorpecida, deveria despertá-la pelo oposto, isto é, pela nova harmonia que o artista de hoje deverá encontrar pela responsabilidade que lhe cabe.

Resende
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1993 | 75x100 | Tinta da China e Pastel sobre Papel Vegetal
1993 | 75x100 | Tinta da China e Pastel sobre Papel Vegetal
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