20 Fev. 2018 // 31 Ago. 2018

RESENDE NA PÓVOA DE VARZIM — DESENHOS ANOS 50

Município de Póvoa de Varzim | Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim

Com “desenhos dos anos 50”, Júlio Resende regressa à Póvoa de Varzim, terra onde lecionou naquela época e que tão indelevelmente o marcou (abundante presença, por isso, ao longo dos anos, nas suas telas) e comunidade que, combinando tão singularmente a perenidade dos fortes usos identitários e a mudança que de muitos lados aportava, de imediato se lhe afigurou ancoradouro favorável à inovação e à criação artística — prenúncio que confirmaria no verão de 1955, com a realização, aqui, de uma Missão Internacional de Arte (a segunda, que a primeira teve lugar em Trás-os-Montes e a terceira, e última, em Évora).
Os ecos desta iniciativa (na opinião pública local e na produção dos 14 artistas participantes, quase todos estrangeiros e todos tão calorosamente — apeteciam-me dizer: tão poveiramente — acolhidos e integrados) foram tão favoráveis (desde logo para a imagem desta então vila, já em processo de afirmação nacional) que admira não tenha tido continuidade esta iniciativa de Júlio Resende, a que Fernando Barbosa, então vereador da cultura na câmara presidida pelo Major António José da Mota, deu o melhor apoio.
O que a Póvoa então acolheu foi (dizemo-lo nós, hoje) o germe de uma iniciativa que, por entroncar na sua idiossincrasia cultural, potenciaria o modelo de desenvolvimento mais consentâneo com o perfil da sua economia de génese turístico-balnear. O facto de a iniciativa (designadamente nesse modelo organizativo) não ter tido continuidade, apesar do aplauso geral que então colheu, revela que o município (a comunidade, afinal), não teve, na ocasião, a perceção da importância da arte (designadamente por via da permanência demorada de artistas no seio da comunidade) enquanto alavanca desse modelo de desenvolvimento.
Pena que a Póvoa de Varzim tenha esperado quatro décadas para replicar, noutros moldes organizativos e no contexto
de outra expressão artística, a proposta de inserção dos criadores no quotidiano das comunidades, que Resende visionariamente antecipara: no caso, um festival literário, com autores de expressão ibero-americana, que anualmente aqui se reúnem, vários dias, em número de muitas dezenas, com outros intervenientes no circuito do livro e da leitura, fazendo desta cidade a grande referência nacional da bibliofilia — como é doutras expressões artísticas, designadamente da música e da dança.
Nos anos 50, com o génio da sua iniciativa visionária, Resende antecipou, com a maior naturalidade, a vocação urbana da Póvoa de Varzim, que esperaria décadas para se confirmar como “cidade da cultura e do lazer”.
É, pois, muito bem-vindo este seu regresso à cidade que para sempre marcou o seu percurso criativo — tanto que há, na sua obra, uma clara fronteira entre o antes e o depois da Póvoa. Regressa a esta cidade a pretexto do centenário do seu
nascimento, em boa hora promovido pela Fundação que lhe cuida da obra e da memória. E apresenta-se aquando da realização da 19a edição do “Correntes D’Escritas”, a tal iniciativa, no campo das letras, que é lha, distante e dileta, daquela que, na área da pintura, ele promoveu e aqui trouxe, faz este Verão 63 anos.
A Póvoa que Resende pintou, a Póvoa que tão profundamente o marcou, a Póvoa que ele anteviu terra das artes e dos artistas — essa Póvoa, afinal, existe, afirmando-se através da literatura, da dança, da música, da escultura, da pintura, e da sua população em tudo envolvida, como uma cidade criativa.

O Presidente da Câmara Municipal de Póvoa de Varzim
Aires Henrique do Couto Pereira

Fotografias: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim


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S/Título, 1951 | Tinta da china | 16,0 x 22,5 cm
S/Título, 1951 | Tinta da china | 16,0 x 22,5 cm
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