23 Out. 1998 // 30 Mar. 1999

"Paraguaçu"

Júlio Resende

Galeria do Acervo | Collection Gallery

Cachoeira. Palavra feita de lama, limos e musgos, como mil braços subindo do Paraguçu, mil braços elevando-se, entrechocando-se nas ruínas dos solares esventrados. Voz que nos chega como um imenso e insólito coro de exclamações, falando-nos de um passado lendário. Caramuru emergindo das águas, ou surgindo das florestas; o homem identificado com a Natureza, procriando em obediência à força vital. Exclamações de incontida surpresa dos descobridores portugueses, e, logo, de invocação à Senhora do Rosário, em hinos laudatórios, coro magoado de multidões de escravos, adensando o cinza de uma atmosfera feita de incenso.

Ressoam nas empenas os gritos de legítima revolta de uma Maria Quitéria de Jesus, contaminando improvisados batalhões patrióticos.

Mas tudo é eloquência de um pesado e húmido silêncio, traído pelo esvoaçar de urubu negro, destacado de um muro calcinado, levantando poeiras esquecidas e medos antigos. Aí, uma planta irreverente estende os seus tentáculos na pedra, sobre o lavrado requintado de um estilo olvidado. Outra, outra e outra, mil espécies de plantas subindo e caindo sem destino, penetrando ou surgindo das frestas do que resta do orgulho e do delírio do barroco.

A miragem da cana-do-açucar, o ouro, o gado e o fumo, na cabeça dos coronéis, a trote altaneiro sobre o empedrado da praça da Aclamação, como chicotadas em pele morena, repercutidas sem fim de vezes no enquadramento das vastas fachadas, como o Paraguaçu não se contendo nos seus limites...

Pedras que clamam expansão um "Hotel Colombo" de mil janelas em ferida aberta à voracidade da negrura desajeitada das aves, o betão armado como sinal de progresso apetecido, fazendo prodígios de malabarismo ao encontro da morna nostalgia das áureas cidades da longínqua Europa; as pérolas enquadrando estatuetas em atitudes enfáticas, numa teimosa subsistência, e sorrindo, sorrindo sempre candidamente aos céus pesados dos Recôncavo. E o homem que permaneceu numa Cachoeira, porque ele não deixará de sobreviver às correntezas dos tempos e às lamas do rio. Sua tez morena confundindo-se na negrura dos muros dos tempos; o seu olhar, porém, reflecte a luz azulada da serenidade e da esperança, e nisto, todas as cores assentam em harmonia. E nisto, como em tudo o mais: - "Sua benção Vôvô...", uns grandes olhos rompendo em pequeno rosto moreno, falam de uma harmonia do milagre português.

Silhuetas aparentemente imóveis, de encontro aos musgos de uma eternidade, pulsam um pulsar ritmado pelos pandeiros de qualquer fortuito candomblé.

Nas margens de um rio esbracejando loucuras, o negrume rompe os céus nos esvoaçar de densas massas. Ao estridente piar das aves, eis que se juntam as vozes dos jovens, levando diante de si o clarão da beleza do corpo e da alma porque eles fazem a harmonia.

Das ruínas ergue-se uma flor; dois braços emoldurando a graça de um rosto de moça. Cachoeira que perdurará!...

Cachoeira, Setembro, 1982
Resende
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1982 | Homem da Melancia | 78x6,5 | Aguarela sobre Papel
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