14 MAI // 26 JUN 2016

NUNO SOUSA | Intervalos, Lacunas e Imagens em Falta

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Durante cerca de trinta anos, os meus avós maternos, a minha mãe e os meus tios, viveram num palacete do séc. XIX em Matosinhos, antiga propriedade do Conde de Alto Mearim, junto ao mercado municipal. O meu avô era na altura vigilante do armazém de uma empresa de exportações que tinha comprado o palacete uns anos antes, a minha avó era doméstica e cuidava do jardim da propriedade. De um modo que considero particularmente irónico, a minha mãe e os meus tios, que viveram no limiar da pobreza, habitaram durante a sua infância e adolescência num palacete onde décadas antes havia vivido um conde e a sua família (mais propriamente, num anexo, mas tendo acesso a todo o terreno da quinta e a parte do edifício principal). O edifício foi entretanto demolido (faseadamente, entre 1973 e 1980) tendo a minha família passado a habitar um apartamento perto do local.
Décadas mais tarde, aperceberam-se que não possuíam fotografias do edifício, sendo que até hoje não conseguiram encontrar qualquer imagem com suficiente definição para o poder documentar. As poucas imagens encontradas provêm de registos fotográficos do porto de Leixões, onde o referido palacete é visto muito ao longe, perdendo-se no meio do arvoredo que o circundava. As histórias passadas nesse espaço, assim como a curiosidade da desproporção entre o nível económico de vida dos seus habitantes e a grandiosidade do local, marcaram, até aos dias de hoje, as gerações de familiares que não chegaram a conhecer o edifício. Para as gerações seguintes, o palacete desaparecido adquiriu o estatuto de pequeno mito, símbolo de uma identidade familiar: a de gerações de trabalhadores precários, habitando lugares e terrenos que não lhes pertencem, entrando e saindo de casa pela porta dos fundos.
Em 2012, após a morte do meu avô e com a colaboração de alguns familiares, iniciei uma reportagem gráfica acerca das memórias das pessoas que viveram no palacete. A ausência de imagens fotográficas - e a progressiva deterioração da memória dos que habitaram o espaço - conduziu-me a utilizar o desenho como meio de restituição, conjugando imagens feitas a partir de testemunhos e relatos de familiares, desenhos realizados em colaboração e pequenas sequências narrativas. As imagens resultantes desse processo integram a observação, a recordação e a imaginação e constituem o solo que foi necessário revolver na tentativa de resgatar à escuridão as imagens fugidias e difusas da memória.

Convite oficial.

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