24 Out. 2015 // 22 Nov. 2016

ISABEL SABINO | Os rios nascem no mar

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética I

Mar, rio, lago, cascata: estas palavras invocam imagens, sejam de lugares que conhecemos ou inventamos. Permitam-me que use ambas, imagens e palavras, para que vos introduza à possibilidade de acesso a um espaço em que natureza e mundo se separam tanto quanto se une o que vemos, ouvimos, ou sentimos de outros modos.

Diga-se assim, desde já, que estas paisagens não são apenas para ver. Se, por um lado, nascem de memórias confusas ou sonhos acordados, se aludem a lugares reais ou àqueles que a caprichosa necessidade do processo transforma, ou se há narrativas que submetem formas ou formas que inventam enredos, também trazem acordes de música no ar, vozes filtradas pelo meio de outros sons, cheiros intensos que a cor destila, vento, brisa, calor, frio. Para quem vive um quotidiano intensamente carregado com exigências do real, da razão e dos outros, a pintura carece ser espaço de imensa liberdade, que permita que o pensamento flua como for preciso e, sem barreiras, nexos impostos e preconceitos, aceda a essa espécie de caldo primordial onde cada um, ao encontrar-se a sério consigo mesmo, talvez pressinta um caminho para os outros, de outro modo. Aqui, o que tem que ser, como disse Sophia do poema, “nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes (…) inteireza”.

Em suma, se nestas obras há uma verdade lá no fundo, as ideias imbuídas no ambiente e nos personagens não são apenas visíveis nem carecem de recorte à lâmina, antes vivem submersas no todo que as faz e que elas afectam. Logo, sem deixar de ser pintura e privilegiar a superfície, abre-se à hipótese de regresso e invenção de um lugar onde o espaço não tem dimensões e a pura visualidade não existe.
Tão ingrato como parcelar o mar e os rios será dizer que estas paisagens são apenas território, pois o seu cariz interior e mental ou o tom bucólico não implicam que se trate de um retrato, tanto quanto de uma elegia de um certo espaço natural. Se existe potencial poético (e político) para uma alegoria, desvia-se claramente da relação estrita com a natureza. De resto, aqui o que interessa não é a natureza mas o mundo, são momentos significativos do mundo que se expande e fragiliza. Nesse mundo, onde os elos todos os dias se quebram e multiplicam desenfreadamente, cabem reinos ainda mais vulneráveis, como aquele de que Sophia também fala, “aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece”. E, se ele habita nas formas perfeitas das ânforas de barro antiquíssimas, talvez também a pintura possa continuar a constituir acesso para uma ligação das coisas.

Posso ainda dizer que, face a mostras anteriores, desta vez há uma trama mais larga de histórias possíveis, situação de síntese e transição. Mantém-se a aparência da paisagem onde se movem personagens, contextos visuais e cenas que têm, por vezes, arranque em pretextos propiciadores: ecos de uma ária de ópera ou de uma canção ligeira, impressões de um filme, um facto real como uma frase numa parede ou uma mensagem de telemóvel. Antes já houve uma morte numa piscina, rosas que foram pão e ao contrário, depois uma canção sobre dar e pedir de volta e, sempre, ter e perder no vai e vem da vida; a seguir virá um filme em que, no meio de uma tempestade, os bandidos mantém fora de abrigo os indígenas que subsistem de artefactos feitos de conchas. Aqui, desta vez, a questão que me coloco na preparação da história que se segue - abrandando o ritmo e voltando talvez atrás num ponto da situação e reelaboração em que os desenhos são essenciais – é descobrir como pode ser trabalhado o potencial humanista e eventualmente político (para já apenas visualizável mediante clichés que nada me interessam), armadilhando olhar e emoções por meios pictóricos.
Estou ciente, contudo, que as histórias em si valem o que valem, quase sempre isso é pouco e não interessa o que foi ou é. Conta sobretudo o que pode ser, ou seja, a capacidade dos pretextos para desencadearem conexões cujo sentido ilumine com um grão de esperança, por um momento que seja, o peso das coisas, o nosso imaginário e, desse modo, o nosso caminho no mundo.
Suponho que seja para isso a arte. E nesta, no seu conceito lato e multifuncional, persiste um reduto essencial que não se traduz por grandes relações de causa e efeito, mas é discretamente decisivo no movimento da vida através de nós, seja profundo como um rio subterrâneo ou gasoso como as gotas contidas nas nuvens.
Sim, aqui, os rios nascem no mar. *

Isabel Sabino, 2015

* "Vozes da canção Loucos de Lisboa" (Ala dos Namorados ou Rui Veloso)

umbrapicturae.blogspot.pt | www.isabelsabino.com
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Quel bon dimanche pour la saison | 2014 | acrílicos sobre tela | 125x195 cm
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