7 MAR. | 03 MAI. 2015

MÁRIO AMÉRICO | exposição antológica de desenho

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

A memória do desenho refere uma noção intrínseca, atitude primordial, a intenção perecível antes da ordem simbólica, o momento fluido, efémero, em que riscamos com um gesto curto ou longo um impulso, um apontamento que subitamente nos surpreende. É a tradução de marcas subconscientes que à semelhança dos sonhos não identificamos na sua integridade ou vacuidade formal. É uma espécie de fluxo, intemporal, silencioso, anónimo, que sem aviso abre percursos e desperta a curiosidade.
Não me refiro a “automatismos especulativos”.
O desenho da memória apela à mesma substância mas sugere no entanto uma matéria-prima mais consciente, temporal e sequencial, determinando uma outra categoria de acção que parece remeter para normas, fenómenos de repetição, de integração e até de “acentuações de estilo”, consubstanciada por convicções e obsessões que não devemos reprimir mas agendar metodicamente. É o desenho da memória a reserva que se organiza em “Obra”, que anima os sentidos, retira ilações e nos incita para o “método”, para processos de ordenação e combinatórias que consolidem um conteúdo emocional antes oculto a que essa forma de expressão, corporizando, estruturando, acrescenta uma projecção imaginária, por vezes poética e lúdica.
Não resisto à tentação de afirmar que é na ambivalência destes enunciados que esta exposição assume uma natureza antológica, visto referir um período de reflexão analítica alargado que percorre cinco décadas de escolhas, especulações, de afectos que suscitam alguma nostalgia, ingenuidade, vícios e idiotices1, sinais misturados ou alternados, convocando num primeiro momento, matricial, figurações, imagens ambíguas, sugestões, e posteriormente desenvolvimentos fundamentados na experimentação plástica, na mobilidade dos temas e dos meios técnicos.
Mário Américo, 2015

1 Mário Perniola, filósofo italiano, no seu livro “A arte e a sua sombra”, evoca no capítulo primeiro, intitulado “A idiotia e esplendor da Arte Actual”, o filósofo francês Clement Rosset, que "introduz a noção de idiotia para indicar o carácter simultaneamente fortuito e determinado do real. [...] Ao artista como génio de Schopenhauer e da tradição romântica sucede o artista idiota: o que acumula estas duas figuras à primeira vista antagónicas é a pretensão de captar a essência do real para lá de todas as falsas mediações da linguagem e do pensamento". Ainda citando Lacan, Perniola considera que "a Arte não pode nunca dissolver-se na comunicação, porque contém um núcleo incomunicável que está na origem duma infinidade de interpretações.”

Convite
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estrutura (lousa) |  2014 | grafite e carvão sobre papel |  110,0 x 74,0 cm
estrutura (lousa) | 2014 | grafite e carvão sobre papel | 110,0 x 74,0 cm
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