18 Jan. 2014 // 16 Mar. 2014

“Auto” Retrato ou a influência de um Olhar | Carlos Marques

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

No ano de 2009, a propósito de um desafio que me fizeram no sentido de desenvolver uma peça sobre um neurónio, realizei um trabalho que integrou a exposição “Exuberâncias da Caixa Preta” comemorativa do aniversário e da publicação do livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais” de Charles Darwin.
A partir desse momento, tenho-me vindo a interessar pelo exploração de trabalhos que têm como principal motivo o estudo de expressões faciais e,
esse interesse, acentuou-se mais durante o ano de 2010 quando realizei uma série sistematizada de relevos em madeira com expressão de humanos e símios, “uma Janela para Darwin”, que foram agrupados e compostos num tríptico, apresentado posteriormente ao público, em Abril do ano de 2012.
Paralelamente, estava também a desenvolver um trabalho focalizado na memória de expressões mas, neste caso, de expressões plásticas que, de uma forma ou de outra, se tinham tornando referência para a escultura que sempre me interessou.
Nesse trabalho paralelo, independentemente das influências de outra ordem a que sempre estamos sujeitos, preferi referenciar a forma ou a intenção presente na obra de alguns escultores tendo escolhido aqueles que, por diversos motivos, sentia serem mais próximos.
Assim, a sistematização e a construção modular em André, a colagem e abstração biomórfica em Arp, a atitude autossuficiente, a insistência no talhe direto e a procura insistente e depurada de Brancusi, o conceptualismo e o ready made de Duchamp, a imponderabilidade de Calder, os cabos, as amarras e a atitude interventiva de Christo, a conquista linear do espaço em Giacometti, a ortogonalidade de Lewit, a eleição do percurso e a instalação em Long, a abstração da figura em Moore, a subversão da escala em Oldemburg, a expressão do modelado e a parte pelo todo de Rodin, a assunção da fractura em Ruckriem ou a abertura ao espaço e a intervenção na paisagem em Shmitson, foram elementos importantes para a escolha do tipo de abordagem que apresentei no conjunto de peças que realizei, subordinados ao tema Relicários.
Para além da casa, janela, percurso, limite, fronteira, ponte e encontro, elementos sempre presentes no meu trabalho, a memória dessas referências históricas, às vezes improváveis, ou de imagens ocultas no subconsciente, são expressões sempre latentes no espaço onde resguardo os objetos mais íntimos.
A opção de as prender num espaço de carácter “íntimista”, de homenagem ou veneração como um relicário, pareceu-me interessante e adequada ao que pretendia.
A subversão da escala, obrigando o espectador a aproximar-se, potenciando uma relação íntima com esse espaço de memória, acentua-se agora, de maneira inversa, subvertendo também a relação do observador com as peças expostas, obrigando-o a afastar-se, de forma que tanto umas como outras estejam reféns do espaço que as separa do público.
A questão da distância, separação e encontro, é também, como a memória, elemento fundamental.
Os atuais retratos, enquadram-se assim, no desenvolvimento desse processo de exploração do espaço e da distância, mas também das expressões, homenagem ou memória de referências, já assumida na mostra de pequenas peças, caixas com interiores ou relicários, que vão estar expostos novamente, agora no Porto em Março do corrente ano.
Assim, recuperando retratos de escultores que envolvi como memória nesses relicários, acrescentei outros, também eleitos na esteira desse processo de homenagem.
Alguns deles, em estágio mais avançado no processo, tentam encontrar um possível equilíbrio na aglutinação daqueles que, por ventura tenham tido influência mais significativa no meu trabalho.
O desenho das faces não definem a exuberância expressiva de emoções, como acontecia com os módulos esculpidos em madeira para o trabalho “Uma Janela Para Darwin”, já que se pretende produzir um trabalho, de reconhecimento de vários olhares, também de expressões, ainda que mais contidas, com uma fatura similar, pouco pessoalizada e num formato sistematizado e repetitivo, para encontrar a unidade indispensável.
A confrontação com olhares de personagens que se constituem pelo seu conjunto num único olhar, é uma espécie de exorcismo que se cumpre e me tem acompanhado.
Apesar de tratados individualmente, os desenhos assumem-se, como módulos de um conjunto, fazendo todos parte de um mesmo corpo.
Mesmo expostos de forma tradicional eles fazem sentido através do conjunto e é essa expressão global que pretendo que esteja exposta nesta espécie de instalação.
Utilizei ferramentas informáticas para chegar ao resultado que pretendia: Encontrar uma mancha em alto contraste, o mais universal possível e mais ou menos expressiva, para servir de modelo à intervenção que iria realizar, a preto, sobre uma superfície branca.
Assim como a imagem de Che, que Jim Fitzpatrick criou em 1968 a partir da fotografia de Alberto Korda, depois de multiplicada se transformou num ícone mundial, a imagem de cada escultor referenciado exprime a condição de um ícone privado e o tratamento registado na tela acentua essa intenção.
Como se desenhasse com a mancha a negro sobre uma superfície de papel branco, a tela imaculada é acentuada a espaços pela luz ténue de uma mancha branca.
É da conjugação deste contraste de opostos que se faz o interface que produz a imagem.
A realidade é sempre feita pelos seus opostos.
Neste caso a mancha negra não sobrevive sem a mancha branca do fundo e vice versa.
É essa zona de tangência, esse espaço de fronteira, essa memória de dois campos ou essa síntese de distância que me importa.

Carlos Marques Novembro 2013

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