19 Jan. // 7 Abr. 2013

ANA LINHARES | SMULTRONSTÄLLET

Sala 3 | Room 3

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As nuvens, bicicletas, linhas, árvores (...) presentes (...) são símbolos quer da nostalgia e melancolia, quer da alegria e liberdade de alguém que sabe que o mínimo é aliado do máximo e que prescinde da figura humana, consciente de que ela é, hoje, omnipresente
Degraus sem fim e outras nuvens, Carlos Bessa, 2004
Smultronstället, o título desta exposição, tanto nos remete para aquela que é considerada como uma das obras primas de Ingmar Bergman (Smultronstället, 1957), onde um homem no final da sua vida faz um balanço da sua existência, conquistando na sua parte final os momentos mais sublimes e que o deixam em tranquilidade e em paz com a vida, como, por outro lado, remete-nos para a mítica e bem conhecida canção dos Beatles (Strawberry Fields Forever) de um dos seus mais alucinogénicos albuns (Magical Mystery Tour, 1967). Todavia, e não distante dos vários sentidos em que o termo é conjugado e pode ser interpretado nestas duas obras, Smultronstället, que literalmente referencia um lugar onde crescem morangos silvestres, transporta-nos, tal como as nostálgicas e por vezes melancólicas paisagens de Ana Linhares para um lugar ideal, certamente com um cunho pessoal e/ou sentimental, livre de stress, de tristezas e, sobretudo, dos aspetos mais triviais e mesquinhos das nossas vidas que, afinal, é um dos atributos que melhor pode caracterizar a arte, independentemente da sua aparência, expressão ou linguagem ou, mesmo, dos sentidos com a qual a percecionamos: uma fuga à realidade, um ato de desvelamento ou, talvez melhor, a capacidade de dar a ver aquilo que antes não era de todo visível ou, até, imaginável, ou simplesmente o (re)ensinar-nos a ver o mundo e as coisas sob uma outra perspetiva, nova, renovada.
É pois, neste novo vantage point ou, se quisermos, do Take me there once again, expressão esta utilizada por Ana Linhares noutras ocasiões para contextualizar algum do seu trabalho, que nos devemos deixar levar, pela mão e pelo olhar, a ver a sua exposição, não no sentido de a revisitarmos, pois ela é, de facto, inédita, mas com o intuito de sermos levados, uma outra vez, livre de ideias pré-concebidas, para um território de alguma forma imaculado e a ver muito para além da superfície das inúmeras camadas de informação subjacentes às fotografias, impressões e conjuntos de imagens que se apresentam.
Curiosamente e, com certeza, um dos trabalhos mais admiráveis desta pequena grande mostra, na sala recentemente inaugurada no Lugar do Desenho da Fundação Júlio Resende, é o magnífico atlas que aqui se apresenta e que é constituído por uma multiplicidade de imagens manipuladas e provenientes de stills de vídeos do magnífico e exaustivo Prelinger Archives, do Tumblr, de albuns de fotografia familiares, de livros, de vídeos ou, por exemplo, das fotografias capturadas in situ por Ana Linhares em diferentes ocasiões e lugares visitados por ela no passado. No seu todo, ou através de cada um das suas imagens, este atlas evoca novos e desconhecidos lugares sendo que, ao mesmo tempo, não paradoxalmente, desvela e dismistifica um dos processos, senão o processo chave, por detrás da produção destas imagens, da construção destes lugares, tais como, por exemplo, as outras paisagens e a banda (paisagem) sonora que convivem lado a lado com o atlas nesta mesma exposição.
Pedro Maia, 2013

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