15 Set. 2012 // 21 Out. 2012

Joana Jorge | Faz-de-conta

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

Joana Jorge

(...) Os caprichos de Joana Jorge são estranhamente familiares, apesar da origem das imagens nos ser negada pelo seu efeito cumulativo (o capricho socorre-se geralmente deste efeito como estratégia de invenção). Transitam da apropriação indevida de imagens em bases de dados disponíveis na internet, como inventários perpétuos à espera de serem escolhidos para ilustrarem um artigo. Esta imagética ilustrativa — a fotografia de moda e do cinema, o videoclip e a banda desenhada — que é normalmente o modelo onde se ensaiam as primeiras tentativas na adquisição da destreza gráfica de quem começa a desenhar, é também o lugar onde se cria a ilusão de que as imagens transportam sempre uma narrativa. Não surpreende, pois, que os caprichos de Joana Jorge sejam facilmente associados a um espaço inventário, como um storyboard que prescinde da ordem da linearidade, e em cujos intervalos se convoca a cumplicidade e a cultura do espectador. Mas as suas imagens, apesar da escala dos papéis, são imagens difíceis de ver, como geralmente sucede com as imagens do desenho. As representações de grupos de pequenas figuras, sozinhas ou em interacção, sobrepõem-se, interrompem-se, cancelam-se, numa atitude que se cola ao esboço pelo estado permanente de irresolução, de indeterminação, de processo — o que fazer depois com estas imagens, retiradas do fluxo imagético da contemporaneidade? Nas mudanças constantes da substância do contorno e do carácter da linha reconhecemos as tentativas da artista em evitar responder a esta questão. Os caprichos, pela proximidade com a invenção, recordam-nos que há imagens que se descolam dos sentidos que lhes queremos atribuir, processos cuja direcção e significado não podemos decifrar. São a forma do desenho reivindicar o espaço de uma invenção fora de qualquer obrigação, onde não se desenha porque se tem as ideias claras, ou porque se quer ter ideias claras. Desenha-se, como dizia Henri Michaux, para ficar perplexo outra vez…

Paulo Luís Almeida
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"A espera", Grafite, lápis litográfico, lápis de cor e acrílico sobre papel entelado, 128,5 x 112,5 cm
"A espera", Grafite, lápis litográfico, lápis de cor e acrílico sobre papel entelado, 128,5 x 112,5 cm
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